Ano novo, vida nova – Assombrada de contente

Ano novo, vida nova – Assombrada de contente

    Ano novo, vida nova. A mudança já se pressentia na movimentação dos blogues, nas notícias, nos manifestos e nas conferências em torno dos Museus e da Cultura. Ao longo da década de trabalho da Mapa das Ideias sentimos os efeitos de cada vez mais pessoas pensarem com e sobre os Museus, criando uma massa crítica que se sente na qualidade dos serviços, nos media e, pela primeira vez, parece ter reflexos na política.

    E, desta vez, a inauguração de um ciclo político parece trazer palavras novas com impactos reais e mudanças profundas.

    Devido a critérios de selecção radicalmente diferentes, enformam-se processos de mudança… a palavra “gestor” entrou nos nossos museus. A palavra “estratégia” surge associada a direcções bicéfalas e orçamentos plurianuais. São usadas por pessoas que ainda estão movidas por utopias e megalomanias,  acreditando que a burocracia não é um fim em si mesmo.

    Devo confessar que vejo estas notícias e fico assombrada de contente. Passo a explicar, tenho medo de estar contente com aquilo que poderá ser um novo modelo de gestão dos Museus e dos Monumentos que poderá reposicioná-los na vida dos seus visitantes, seus consumidores no sentido mais pleno.

    Tornar uma instituição parte integrante do lazer e da cultura, abrindo canais para o conhecimento através das práticas sociais, da partilha dos afectos e das experiências. De repente poderá passar a ser uma das prioridades porque poderá ser sinónimo tanto de receitas como de qualidade.

    Por outro lado, nunca houve tantos meios com um tão grande potencial. A Web é um canal económico e massificado em que a partilha de ferramentas de visita tão interessantes como audioguias, roteiros de exploração, filmes multimédia, é fácil, permitindo que a experiência do Museu seja total. Depois de uma década em que a tecnologia era dominante na hierarquia dos custos e na gestão de projecto, os conteúdos podem agora ser o fulcro de investimento.

    Juntando tudo – orçamento plurianual, visão estratégica, tecnologia barata, profissionais bem preparados e críticos – existe um potencial enorme para uma estratégia de mediação cultural que utilizando os princípios de minds, hands, hearts on consiga criar públicos e, mais do que isso, criar conhecimento, aproveitando a interactividade, o diálogo entre o especialista e o leigo, a própria disponibilidade que as pessoas têm em criar os seus próprios media.

    Fico assombrada de contente porque temo uma desilusão como foi, por exemplo, a Rede Portuguesa de Museus. Projecto ambicioso, brilhante, com uma equipa dedicada, que mudou as condições de trabalho em muitos pequenos mas fabulosos museus (por vezes não pela colecção, mas pela integração na comunidade, pelo património edificado, pela integração no tecido rural ou urbano, notáveis na forma como cumprem a missão de preservar a identidade e a memória), interrompido sem grandes explicações, diluído pelos corredores do Palácio da Ajuda.

    Para os dez anos da Mapa, 2009 não poderia ter corrido melhor. Tivemos projectos excelentes, aprendemos imenso, conhecemos pessoas novas com um gigantesco talento e uma enorme experiência (seres humanos fabulosos, inspiradores)… houve conferências, seminários em que participámos, como aquele organizado na Faculdade de Letras do Porto ou aquele no EcoMuseu do Seixal ou, em Agosto, na FCSH, uma escola de verão dedicada à sociologia da cultura sobre a égide da conferência anual da ESA. A par de blogues tão interessantes e transbordantes como o Museologia Porto. Este princípio de 2010 encerra a promessa de uma década estruturante na cultura, transbordando os limites naturais dos museus e dos monumentos, passando a fazer parte da vida das pessoas, como instituições como o CCB e Serralves nos ensinaram.